A solução mora ao lado
Correio Brasiliense - Junho 2009
Luís Vabo - Coordenador do Comitê de Tecnologia da Associação Brasileira de Gestores de Viagens Corporativas
O recente escândalo promovido pelos deputados com a distribuição de passagens aéreas provocou enorme frisson nas agências de viagens corporativas. Um processo de compra da passagens que envolva milhares de compradores, centenas de fornecedores e um único pagante — sendo, nesse caso, a população brasileira o “único pagante” — pode ser controlado de forma eficaz? Resposta dos especialistas: pode, e deve, por intermédio da tecnologia.
A indústria de viagens e turismo é, senão a maior, uma das três maiores do planeta, com contribuição prevista de U$ 5,5 trilhões ou 9,4% do PIB mundial, em 2009. Aqui, esses números correspondem a U$ 83 bilhões ou 6,6% do PIB nacional. As viagens a trabalho, exatamente como aquelas dos deputados, movimentaram em 2008 no Brasil a soma de R$ 33 bilhões, ou seja, 30% do volume total de faturamento em viagens. No quesito empregos, o setor gera 254 mil postos de trabalho (IEVC-USP).
Empresas nacionais e multinacionais utilizam, há muito, sistemas de controle de gastos dos seus funcionários, e não agem diferente quando o assunto é a viagem a negócios. Ao delegar à tecnologia o papel de fiscalizar e, ao mesmo tempo, doutrinar os compradores, a empresa privada garante que todos sigam a política pré–estipulada.
Fiscalização em tempo real, com foco na prevenção e na orientação: o que antes era cuidado apenas pelo olho do gerente, hoje é controlado por sistemas on line que informam se ele está ou não seguindo os parâmetros. Como tudo fica registrado num banco de dados, as corporações têm a certeza de que seus funcionários seguirão as normas. E no eventual caso do descumprimento da regra, o comprador é convidado, pelo mesmo sistema, a justificar sua decisão e solicitar aprovação superior, antes de prosseguir com o processo da compra. Simples assim.
A inteligente decisão da automação do processo eleitoral brasileiro, que nos elevou à singular posição de liderança mundial em tecnologia eleitoral e praticamente acabou com as fraudes, é o melhor exemplo de como deveria agir o setor público também na questão das viagens.
É preciso que se diga que há órgãos ligados ao governo que já adotam a prática transparente do sistema de viagens informatizado, como o TCU (Tribunal de Contas da União), a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), o Ministério da Saúde, o STF (Supremo Tribunal Federal), para citar apenas alguns.
O TCU, num informativo de setembro de 2006, declarou ter economizado a soma de R$ 2 milhões em apenas um ano, com a utilização da tecnologia na gestão de viagens. No informativo, o TCU apregoa que a obtenção das melhores tarifas para aquisição de passagens aéreas é motivo de constante fiscalização pelo tribunal. Cita ainda decreto presidencial, regulamentado pela Portaria 265/2002 do Ministério do Planejamento, que orientou todos os órgãos da administração federal a adotarem medidas com vistas a esse tipo de economia. Outra portaria do órgão estabelece: “A marcação de reserva para as passagens aéreas é de responsabilidade do próprio servidor que requisitou a viagem, a quem compete solicitar à empresa contratada a reserva do respectivo bilhete de viagem na tarifa promocional mais vantajosa...”
Se o dinheiro público não pode ser gasto sem controle e garantia da aplicação do menor preço e do cumprimento das regras estabelecidas pela administração pública, como assegurar que somente servidores solicitarão reservas e jamais o farão para parentes ou amigos? Novamente, a resposta é tecnologia.
Através de um sistema de gestão de viagens, somente pessoas previamente cadastradas podem ser passageiros ou hóspedes, assim como somente funcionários registrados podem ser solicitantes dos serviços de viagens. Nesse ambiente, os autorizadores de viagens, também pré-definidos, são requisitados de forma automática a analisar e autorizar os casos que fugirem à política de viagens do órgão público.
Falta ao governo olhar para o lado, para as empresas privadas, e perceber o quanto os sistemas de gestão de viagens corporativas podem beneficiar os órgãos públicos dos três poderes e gerar enorme redução de custos. Se acrescentarmos as idas e vindas de prefeitos e vereadores de todo país e as viagens dos servidores estaduais e municipais, entre outros, chegaremos a um total muito acima do que pode imaginar o brasileiro de classe média, que, com tanta dificuldade, economiza para, nas férias, ter direito a uma passagem de avião.
Deixar que os limites sejam estabelecidos somente pela boa-fé dos compradores é desconhecer as regras básicas da boa gestão financeira. Ética, todos sabemos, é algo imprescindível a qualquer ente econômico, privado ou público. Ajudar a ética, adotando um sistema transparente de gestão de viagens para a administração pública, é passo decisivo na solução definitiva do problema, enfrentado e vencido há mais tempo pelas empresas privadas brasileiras.